Europa enfrenta inundação de pneus de baixo custo

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Segundo a Associação Europeia de Fabricantes de Pneus e Borracha (ETRMA), mais de 55% dos pneus para automóveis de passageiros e 70% dos pneus para camiões ligeiros vendidos na Europa pertencem atualmente ao segmento económico — produtos mais baratos, mas também os de pior desempenho nas classificações oficiais da União Europeia

A ETRMA divulgou recentemente uma análise elaborada pela consultora Lizeo, que avaliou mais de um milhão de etiquetas de pneus vendidas entre 2012 e 2023 na União Europeia (UE) e na Associação Europeia de Comércio Livre (AELC). O estudo foi apresentado no âmbito do “Diálogo sobre a Implementação da Legislação Relativa aos Produtos Energeticamente Eficientes”, com a participação do comissário europeu Dan Jørgensen, e mostra que o mercado está a mover-se na direção oposta ao espírito da legislação.

A etiqueta europeia de pneus, criada em 2012 e atualizada em 2021, tem como objetivo orientar consumidores e frotas na escolha de produtos com melhor eficiência energética e maior segurança, fornecendo informações claras sobre resistência ao rolamento, aderência em piso molhado e ruído exterior. No entanto, os dados mostram que a mensagem não está a ser eficaz: a pontuação média dos pneus vendidos mantém-se em torno de “D” para resistência ao rolamento e “C” para aderência em piso molhado, revelando que o preço continua a ser o fator determinante de compra.

“Apesar da etiqueta, o segmento de maior crescimento do mercado é também o de menor desempenho”, sublinhou Adam McCarthy, secretário-geral da ETRMA. “Não há consumidores suficientes que conheçam a etiqueta ou a utilizem para orientar a sua escolha. O próximo passo deve ser adotar estratégias complementares que influenciem o preço e os incentivos, mantendo a etiqueta simples e credível”, acrescentou.

O preço ainda manda

A explicação para a expansão dos pneus de baixo custo é simples: o preço inicial. Muitos consumidores e gestores de frotas continuam a escolher o produto mais barato, ignorando os custos operacionais e os riscos associados a pneus menos eficientes. No caso dos veículos comerciais ligeiros, sete em cada dez circulam com pneus classificados como “D” ou “C”, que aumentam o consumo de combustível e reduzem a aderência em piso molhado.

O relatório também revelou que apenas metade dos condutores europeus conhece a existência da etiqueta de pneus, e um número ainda menor a utiliza como critério de compra. Consequentemente, as marcas premium, classificadas como “B-B ou superior” em eficiência e segurança, representam apenas 5% do mercado de camiões e autocarros e pouco mais de 8% no segmento de automóveis de passageiros.

Segurança e ambiente em risco

A ETRMA recorda que os pneus de melhor desempenho podem reduzir as emissões de CO₂ em até quatro milhões de toneladas por ano, o equivalente a retirar 1,3 milhões de automóveis das estradas europeias. Além disso, podem diminuir a distância de travagem em piso molhado em até quatro comprimentos de veículo, fator decisivo para a segurança rodoviária.

Apesar desses benefícios claros, o mercado caminha na direção contrária. O domínio crescente dos pneus económicos traduz-se em maior consumo energético, mais emissões e maior risco de acidentes em condições adversas. A ETRMA insiste que a União Europeia e os Estados-Membros devem reforçar as políticas de incentivo — tanto fiscais como de sensibilização — para promover a adoção de pneus de melhor desempenho.

Incentivos e políticas públicas

A associação sugere que a contratação pública e os programas de apoio à sustentabilidade passem a privilegiar pneus classificados nas melhores categorias da etiqueta, recompensando assim os fabricantes que investem em inovação e qualidade. Além disso, defende campanhas de comunicação direcionadas aos consumidores, explicando de forma prática as diferenças entre um pneu “B” e um “D” em termos de consumo, segurança e impacto ambiental.

“Um pneu de alto desempenho pode custar mais no momento da compra, mas o retorno é imediato”, destacou a ETRMA. “Menor consumo de combustível, maior durabilidade e melhor segurança compensam largamente o investimento inicial”, sublinhou.

O desafio das frotas profissionais

Nos setores de transporte e logística, onde os custos operacionais são avaliados ao cêntimo, a escolha do pneu é um fator determinante. No entanto, muitas frotas continuam a priorizar o preço unitário, desconsiderando a poupança potencial em combustível e manutenção. A ETRMA alerta que pneus premium reduzem o desgaste, aumentam a estabilidade dos veículos industriais e contribuem para menores emissões — elementos fundamentais para o cumprimento das metas climáticas europeias.

Um mercado em duas velocidades

O estudo mostra ainda uma disparidade clara entre segmentos: enquanto os fabricantes de topo têm conseguido melhorar a eficiência e a aderência dos pneus premium, o segmento económico permanece estagnado. Entre 2017 e 2023, a fatia de pneus com classificação “B-B ou superior” cresceu de 2% para 8% no mercado de automóveis de passageiros — um avanço técnico relevante, mas insuficiente para inverter a tendência geral.

Em conclusão, a Europa encontra-se perante um paradoxo: aumenta a oferta e o consumo de pneus mais baratos, mas diminui o nível médio de desempenho e segurança. Para a ETRMA, a solução passa por educação do consumidor, políticas de incentivo e valorização da eficiência como critério de compra. Só assim o continente poderá alinhar o mercado de pneus com as suas ambições climáticas e de segurança rodoviária.

Enquanto isso não acontece, as estradas europeias continuarão a refletir o mesmo dilema que domina o mercado: a escolha entre o preço mais baixo e o desempenho mais alto — uma decisão que, no fim, tem impacto direto não apenas no bolso dos condutores, mas também no futuro ambiental e na segurança de todos.