Espírito de entreajuda e ambição coletiva são fatores de motivação das equipas

Muito se tem escrito e falado sobre motivação profissional, porque é um tema demasiado amplo, no qual tudo pode ser verdade e tudo pode ser mentira, se não forem balizadas áreas específicas, se não houver experiências concretas de suporte e se não houver resultados práticos visíveis
É relativamente simples definir a motivação profissional a nível pessoal, porque ela assenta essencialmente em capacidades inatas para uma determinada actividade, às quais se junta uma aprendizagem fácil, uma concretização eficaz e uma ambição de progredir.
A pessoa mantém-se motivada porque todos os seus passos resultam certos, os degraus são todos transpostos numa sequência lógica e as promoções no emprego são a regra, quando não há mudança para um emprego melhor. O próprio sucesso profissional acaba por tornar-se na força motriz da organização do projecto de vida e na motivação para o esforço de superar lacunas ou imperfeições pessoais.
No caso de uma equipa, a dificuldade começa desde logo porque se trata de um conjunto de individualidades, mais ou menos compatíveis, mais ou menos funcionais, ou disfuncionais, mais ou menos comprometidas, ou descomprometidas. Portanto, antes de pensarmos em motivar uma equipa, é fundamental saber exactamente o que isso é. O conceito básico de qualquer equipa é a possibilidade de um grupo de pessoas alcançar objectivos inacessíveis a cada um individualmente, através da cooperação e da interacção recíprocas. No entanto, embora este conceito seja de alguma forma imanente à noção de equipa, nem sempre ele está patente e as equipas começam muitas vezes a falhar por causa disso. No caso das PMEs, que constituem a maioria das empresas de reparação automóvel, existem vários tipos de tentações, que podem deturpar o conceito original de equipa e levar o projecto ao falhanço ou a uma rotina apagada e sem perspectivas. Na maior parte dos casos, é a tentação do poder sobre os outros e das vantagens que derivam daí que corrompe o normal relacionamento no interior de uma equipa.
Muitas vezes, o promotor da empresa ou o gestor por este delegado assumem a postura inadequada do “Eu quero, posso e mando!” ou “Se não fosse eu…”, ignorando que os colaboradores são efectivamente parceiros privilegiados do negócio e que sem a sua total boa vontade é difícil construir qualquer coisa. Em qualquer equipa, a primeira pessoa do plural é o elemento chave da convocação de vontades e deve substituir o sempre desagradável “Eu…qualquer coisa”. A liderança reconhece-se, afirma-se pelos argumentos e pelos factos e é respeitada pelos resultados. O líder verdadeiro deve esperar ser reconhecido e aceite pelos seus companheiros de percurso, em função a sua vontade consistente, da sua clarividência, capacidade de compreensão e de trabalho. Este é um factor decisivo para o sucesso e motivação da equipa, porque a liderança é motivadora se e quando consegue mobilizar, incentivar e contagiar.
O vedetismo é outra praga que aparece em muitas equipas (não só nas de futebol…), se não for bem compreendido e estabilizado. Há oficinas em que o dono ou chefe são pessoas mais discretas do que o melhor mecânico ou o melhor pintor, por exemplo. Isto pode levar a que o técnico tente assumir um papel que não é o seu, criando mal-estar entre os seus colegas e destabilizando a equipa, que se quer coesa e organizada.
Embora os bons profissionais devam ser motivados, recompensados e promovidos, a maneira correcta de o fazer é através de novas responsabilidades dentro do seu âmbito, e nunca em prejuízo do bom funcionamento e entendimento no interior da equipa. É fundamental que todos tenham perfeita noção de que os resultados são fruto do contributo de todos e de cada um. Os contributos excepcionais são certamente reconhecidos e recompensados à posteriori e nunca à priori, para evitar que a equipa se desmotive em função de uma “estrela”.
Qualquer relacionamento humano sólido, duradouro e de total confiança implica uma saudável cumplicidade. A cumplicidade é o tónico indispensável de qualquer equipa. Muitas vezes, a cumplicidade é mal compreendida, talvez em função do próprio termo. Muitas pessoas julgam que cumplicidade é desculpar o outro, imitá-lo nos erros ou até encobrir as falhas desse outro.
Mas essa cumplicidade é a dos malfeitores e dos irresponsáveis. Uma cumplicidade saudável implica conhecer os pontos fortes e os pontos fracos do outro e saber quando é a melhor altura de dar uma palavra de alento, um incentivo e um conselho. Outras vezes, ajudar o outro implica uma censura ou uma crítica, porque cumplicidade implica confiança, liberdade e amizade. Tomando a analogia do futebol, quando um colega perde a bola, não é o melhor momento para o censurar, mas sim de ir apanhar a bola que ele deixou escapar e empurrar a equipa para a frente. Atitudes assim é que fazem as equipas verdadeiramente “invencíveis”.
Muitas vezes, as equipas estiolam-se e perdem a motivação por falta de objectivos e por ausência de regras claras, para marcar o cumprimento dos objectivos mais ambiciosos ou a ultrapassagem desses objectivos. Qualquer empresário sabe os custos fixos da sua empresa e quais são os objectivos necessários para ultrapassar a fasquia da sobrevivência.
Mas, isso pode não ser suficiente, nem para garantir a sustentabilidade do projecto, nem para manter acesa a motivação da equipa. Voltando ao futebol, podemos facilmente verificar que uma equipa que aposta no empate ou vitória tangencial para garantir a permanência, dificilmente o consegue. Mesmo assim, no futebol isso pode ser já um objectivo ambicioso, para equipas com menos recursos.
No mercado de reparação, no entanto, é preciso marcar golos todos os dias e jogar sempre ao ataque, porque a concorrência é vasta e os encargos elevados. Objectivos de facturação, captação de novos clientes e de fidelização de clientes já consolidados ajudam a manter a motivação do pessoal, dando a percepção à equipa de que está a gerar riqueza, que poderá reverter no seu próprio interesse. Para que isso se torne mais claro, é conveniente que a empresa estipule incentivos e prémios para os resultados positivos, em linha com os objectivos, ou acima destes.
Para manter uma equipa motivada, é necessário acreditar nos princípios de gestão sólidos, nos procedimentos eficientes, na eficácia da organização e na qualidade. Uma empresa é uma máquina que necessita de um lubrificante especial, a motivação. Se as pessoas fazem as coisas para evitar uma repreensão ou castigo, para ganhar alguma recompensa, para ficar à frente de outros, etc., estão de facto a ser empurradas e a ser obrigadas a fazer o que não desejam.
Nestas condições, qualquer grão de areia na engrenagem é suficiente para avariar ou parar a máquina. A verdadeira motivação surge dentro dos elementos da equipa, quando eles acreditam no seu próprio mérito e no mérito da equipa, espelhado nos resultados e em pequenos e grandes gestos do quotidiano. Confiança em si, cumplicidade positiva, espírito de entreajuda e ambição colectiva são os grandes factores de motivação das equipas e a base do sucesso da sua actuação.
Cabe ao líder do projecto zelar constantemente para que esses factores se mantenham plenamente activos dentro da sua empresa. Cultura empresarial, alguma psicologia, criatividade e um esforço permanente de equilíbrio tornam possível que continuem a existir empresas de sucesso. O ideal seria que o sucesso fosse a regra e não a excepção. Afinal, trata-se apenas de mais um objectivo que pode e deve ser assumido colectivamente por todos nós.




