Cientistas pedem normas globais para medir emissões dos pneus

Uma série de artigos científicos recentemente publicada defende a necessidade de reforçar a investigação e criar metodologias harmonizadas para avaliar as emissões resultantes do desgaste de pneus. O objetivo é colmatar lacunas de conhecimento e garantir decisões mais fundamentadas
Um conjunto de três artigos — dois já disponíveis e um terceiro previsto para o final de 2025 — fez uma revisão de mais de 850 publicações científicas dos últimos 40 anos sobre o tema. A conclusão principal é que os estudos existentes sobre emissões de desgaste de pneus são dispersos, inconsistentes e inconclusivos.
O projeto, apoiado pelo Tire Industry Project (TIP), aborda diferentes dimensões do problema. Os dois primeiros artigos analisam a caracterização destas emissões e o seu impacto ambiental. O terceiro, ainda por publicar, incidirá sobre eventuais efeitos na saúde.
Segundo o investigador Stephan Wagner, “O tema das emissões de desgaste dos pneus é extremamente complexo, multidimensional e, infelizmente, apenas parcialmente compreendido. Embora tenham sido registados progressos notáveis ao longo dos anos na análise destas emissões, as lacunas e inconsistências significativas no conhecimento impedem uma compreensão completa do seu comportamento e impacto”.
“Até que estas lacunas sejam colmatadas, há uma preocupação crescente de que as decisões sobre as emissões dos pneus possam basear-se em dados científicos incompletos. A resolução disto exige que todas as partes interessadas — academia, indústria e decisores políticos — colaborem e procurem consistência, com base em investigação e modelos de avaliação partilhados, como os propostos nos nossos artigos”.
Também Larisa Kryachkova, diretora-executiva do TIP, sublinhou que “desde a nossa criação, há 20 anos, a nossa missão tem sido fortalecer as bases científicas para impulsionar a ação da indústria. O SOK destaca por que razão precisamos de uma resposta coordenada e multissetorial para fechar as lacunas de conhecimento, agora mais do que nunca. Também reforça a nossa ambição de construir um ecossistema de investigação mais aberto e colaborativo, através de iniciativas como a Chamada Aberta para Projetos e a próxima Conferência de Investigação sobre Emissões de Pneus no MIT, em Boston”.
Principais conclusões dos artigos
O primeiro artigo destaca a importância de compreender que tipos de emissões resultam do desgaste dos pneus, como são libertadas e para onde se dispersam. Entre elas incluem-se partículas (TRWP, compostas por borracha, pavimento, sistemas de travagem e poeiras minerais), compostos voláteis e substâncias dissolvidas. O estudo propõe ainda um modelo conceptual de exposição (CEM) para melhor avaliar riscos e defende a criação de protocolos normalizados que permitam comparações fiáveis.
O segundo artigo analisa se o conhecimento atual é suficiente para uma avaliação robusta dos riscos ambientais, concluindo que os dados disponíveis ainda são limitados, sobretudo no que toca a compostos voláteis e solúveis libertados pelos pneus. A ausência de métodos de teste consistentes dificulta conclusões sólidas, pelo que os autores recomendam diretrizes harmonizadas. Inspiram-se em frameworks já usados para os microplásticos, mas sugerem adaptações específicas.
O artigo propõe ainda uma avaliação de perigos por etapas, desde testes com material moído criogenicamente até ensaios em condições reais. Para avançar, sublinha-se a necessidade de colaboração entre indústria, académicos e decisores políticos na definição de metodologias padrão para recolha, análise e avaliação de riscos.
No balanço do trabalho, Wagner afirmou: “Estamos satisfeitos com a evolução do projeto SOK e com o papel que pode desempenhar para garantir uma compreensão coletiva das emissões de desgaste dos pneus, eliminando a desinformação. Foi um intenso esforço de equipa nos últimos dois anos e apreciamos a forma como o TIP apoiou este projeto, mantendo a nossa independência e autonomia. Esperamos que estes artigos incentivem a comunidade científica e sirvam de catalisador para futuras pesquisas e padronização”.
Para garantir imparcialidade, os artigos contaram também com contributos de especialistas externos, incluindo membros do grupo de verificação do TIP, como J. Spengler (Universidade de Harvard), How Yong (Universidade Normal de Pequim) e T. Mincer (Universidade Atlântica da Florida).




